No âmbito da unidade curricular de Psicologia do Adulto e do Idoso, leccionado pela docente Carla Serrão, foi-nos proposto um artigo científico, cujo objectivo era explorar o tema do Adulto e do Idoso. Optei por trabalhar sobre o tema da Sexualidade e representações Sociais no Idoso, e para isso, fiz várias pesquisas. Neste sentido, apresento aqui o artigo da docente Carla Serrão, que foi um dos artigos em que me debrucei para o meu trabalho. Passo então a mencioná-lo:
Palavras-chave: terceira idade, sexualidade, representações sociais
A SEXUALIDADE NA TERCEIRA IDADE: OLHAR, MUDAR E AGIR
Se falar, reflectir e auscultar a sexualidade nas diferentes fases do ciclo vital é difícil, constrangedor e preconceituoso, mais delicado parece ser autenticar a sexualidade na terceira idade.
Neste domínio muito se tem investigado, analisado e corroborado, porém, as conclusões referem-se quase exclusivamente a amostras de adolescentes, jovens e adultos. Assim e além da longevidade da população ter obrigado ao desenvolvimento de um conjunto de pesquisas relacionadas com o idoso, também é claro que parcas investigações têm sido realizadas no âmbito desta dimensão humana- a Sexualidade (Negreiros, 2004).
Entender a sexualidade é um processo complexo, íngreme e inacabado e isto deve-se, entre outros factores, às representações enraizadas na sociedade do conceito de sexualidade como sinónimo de sexo, utilizadas comummente como análogos.
É óbvio que uma das grandezas da sexualidadeé a relação sexual, porém, ela não se reduz a este acto; ela compreende a necessidade de contacto, ternura de intimidade, um conjunto de sentimentos, comportamentos e afectos (OMS). É uma “dimensão humana eminentemente relacional e íntima… um elemento essencial … no bem-estar físico e emocional dos indivíduos” (ME, CCPES, MS, APF, CAN & RNEPS, 2000, 23). É também uma forma das pessoas perceberem a sua identidade (Vasconcelos, 1994), pois, a intimidade e a proximidade dão sentido à vida dos indivíduos e ao estabelecimento de vínculos securizantes.
Além da dificuldade em compreender o conceito abrangente de sexualidade, denota-se uma tendência em desvinculá-la deste período da vida. Como de um momento para o outro, esta dimensão desaparecesse, fosse lacrada da vida das pessoas. O idoso, analogamente à criança, é analisado numa perspectiva assexuada, sem quereres, sem desejos, sem sentires, sem fantasias, sem expectativas…
De facto, frequentemente deparamo-nos com discursos sociais que denunciam estereótipos negativos (Castro, 1999) associados às pessoas de terceira idade, nomeadamente, que “não se interessam pela sexualidade” (Dinis, 1997). Ora, se a sexualidade é uma parte essencial do relacionamento com os outros, particularmente no domínio amoroso (ME et al., 2000), como é possível ponderar que na terceira idade não há espaço para amar, para ser amado, para sentir e para desejar.
Esta atitude repressora da sexualidade das pessoas de terceira idade é muito patente nos adultos, principalmente nos familiares, que são um dos factores que eternizam esta assexualidade (Fericgla, 1992).
A sexualidade expressa-se de diferentes formas nas múltiplas etapas do ciclo vital, assim a sexualidade é evidentemente vivenciada e expressa de diferentes maneiras na terceira idade, comparativamente com as restantes etapas. Conforme refere Capodieci (2000, 231), “na idade avançada ama-se de maneira mais profunda, consegue-se purificar o amor da paixão que é mais sensual do que genital. Assim, para eles, um olhar ou uma carícia podem valer mais do que muitas declarações de amor”. É com estas palavras e expressões, bem mais espontâneas e autênticas que a sexualidade pode ser vivenciada pela pessoa e pelo casal nesta fase vital.
Além disso, o próprio envelhecimento fisiológico produz mudanças universais, afectando todas as pessoas que chegam à terceira idade (SPPC, s/d), no entanto e apesar das mudanças fisiológicas e anatómicas que se produzem, as pessoas podem manter, se assim o desejarem, a sua actividade sexual.
De facto, a sexualidade na terceira idade, parece estar mais associada à sua dimensão psicoafectiva pois, como salienta Vasconcelos (1994, 84) “o sucesso conjugal na velhice está ligado à intimidade, à companhia e à capacidade de expressar sentimentos verdadeiros um para o outro, numa atmosfera de segurança, carinho e reciprocidade” e pode significar uma oportunidade de “expressar afecto, admiração e amor, a confirmação de um corpo funcional, aliado ao prazer de tocar e ser tocado”.
Diria mais, se a sexualidade é uma esfera da vida tão importante em todas as fases desenvolvimentais, dando significado e segurança às pessoas, maior segurança pode trazer às pessoas de terceira idade pois, perante um conjunto de perdas e riscos que esta etapa pode acarretar, mais necessário se torna termos alguém com quem partilhar as nossas angústias e ansiedades.
A postura social generalizada que caracteriza a terceira idade a partir de um conjunto de estereótipos, limitadamente críticos e privados de objectividade, distorcem a realidade dos indivíduos (Martins & Rodrigues, s/d). De facto, a terceira idade (assim, como as demais) tem sido objecto de múltiplas crenças, com a intencionalidade de homogeneizar todas as pessoas, ignorando a sua individualidade (Devide, 2000). Assim, a aceitação das representações sociais gerontofóbicas, contribuí para que o idoso se acomode passivamente a estes rótulos, perpetuando a imagem que os próprios idosos têm em relação a si.
Desta maneira, o nosso agir, enquanto profissionais tem como ponto de partida e de chegada a não aceitação destas construções sociais, fazendo com que o próprio idoso tenha autonomia e capacidade para “desmontar” as representações que se tem em relação a este período da vida, sendo um agente pró-activo desta mudança.
Ao criarmos espaços de relação, de discussão destes temas, especificamente, o da sexualidade, podemos estar a contribuir para a mudança de uma auto-imagem do idoso, ajudá-lo a perceber os seus direitos, as suas capacidades, nomeadamente, a capacidade de amar, de se relacionar, de procurar contacto, de desejar.
De facto, reflectindo e desmontando os seus receios (muitas vezes associados à submissão da opinião de familiares, a situações financeiras, entre outros) e percebendo e exigindo a sua individualidade, damos mais qualidade aos anos da sua vida.
Mestre em Psicologia da Saúde
Docente na Escola Superior de Educação – Instituto Politécnico do Porto
BIBLIOGRAFIA
Capodieci, S. (2000). A idade dos sentimentos: amor e sexualidade após os 60 anos.
Bauru, S. Paulo. EDUSC.
Devide, F.P. (2000). Velhice… Espaço Social de Aprendizagem: Aspectos Relevantes para a Intervenção da Educação Física. Motriz, vol. 6, 2, p.65-73.
Dinis, C.M.R. (1997). Envelhecimento e Qualidade de Vida no Concelho de Faro. Coimbra: (s.n), 1997. Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.
Fericgla, J.M. (1992). Sexo y Afectividad en la cultura de la ancinidad. In: Envejecer Una. Antropología de la Ancinidad. Barcelona: Antropos.
Martins, R.M.L., & Rodrigues, M.L.M. (s/d). Estereótipos Sobre Idosos: Uma Representação Social gerontofóbica. Educação, Ciência e Tecnologia, p. 249,254.
Ministerio da Educação, Comissão de Coordenação da Promoção da Saúde, Ministério da Saúde, Associação para o Planeamento da Família, Centro de Apoio Nacional, & Rede Nacional de Escolas Promotoras de Saúde (2000). Educação Sexual em Meio Escolar: Linhas Orientadoras. Editorial do Ministério da Educação.
Negreiros, T.C.G.M. (2004). Sexualidade e género no Envelhecimento. ALCEU, vol. 5, 9, p. 77-86.